sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Porque um raio não cai duas vezes no mesmo lugar...




Na quarta-feira retrasada teve futebol. Fazia tempo que eu não jogava. Voltei pra casa com um machucado no cotovelo. Convivi bem com ele durante a semana. Nesta quarta-feira fui jogar novamente. O machucado no cotovelo estava quase curado... Machuquei o dedão do pé. Doeu um pouco e ainda dói. Dói agora, dentro do meu sapato, enquanto escrevo sobre ele. Na quinta-feira (ontem, se o leitor contou bem) acordei e fui trabalhar. Peguei o dedão machucado, passei remédio, cobri com gaze, coloquei o pé na meia e calcei os sapatos. Claro que ficou apertado. Fui trabalhar assim. Estava atrasado. Correr até a Caxangá não era uma opção, então eu fui mancando mesmo. Cheguei na Caxangá, atravessei a pista do sentido cidade-subúrbio e parei no meio. Eram duas fileiras intermináveis de carros. Avistei meu ônibus na outra ponta da outra pista. Pedi com a mão para os carros pararem e me deixarem passar. Eles pararam e eu subi, aliviado. Não posso deixar de mencionar o ônibus. Era o RIO DOCE(CDU). Tenho certeza que o leitor conhece bem. Era ele mesmo. E eu ainda fui sentado! A viagem estava normal. Eu oscilava entre cochilos e troca de mensagens com minha namorada, Khrízia Taynã (que tem brabeza e beleza em excesso). Tudo isso ouvindo Djavan ou alguma outra música boa. De repente, o ônibus freou bruscamente e um som estridente foi ouvido. Quase fui arremessado da cadeira... Foi extremamente rápido. O ônibus batera numa árvore. O leitor vai pensar o mesmo que eu: como o motorista conseguiu fazer isso? Ainda estou estudando isso... Toda a parte do letreiro eletrônico do ônibus ficou quebrada. Nós ficamos bem. Outro ônibus, da mesma linha, passou, logo em seguida e todos subimos. Resultado óbvio: cheguei atrasado. Acabou ali a parte aventureira daquele dia. Se eu tivesse Guilherme Arantes, ontem, no meu celular, eu ouviria “Amanhã”, pra servir de consolo... Hoje, pela manhã, foi assim: Acordei, coloquei uma meia no pé cujo dedão ainda está machucado e calcei os sapatos. Saí atrasado, mancando um pouco menos que ontem. Cheguei na Caxangá e parei no meio da Avenida. Esperava pela oportunidade de atravessar a segunda pista e chegar na parada quando vi que Rio Doce se aproximava. Pedi, com desespero, pra imensa fila de carro parar e me deixar passar. Eles o fizeram. Subi no ônibus e... fui sentado!!!... Entre cochilos e músicas e namoro por mensagens, senti o ônibus parar e abri os olhos (estava no momento do cochilo, nessa hora). Abri os olhos despretensiosamente, como se tivesse acordando numa manhã calma de sábado... Vi todos os passageiros se levantarem e começarem a descer. Eu estava perdido... O que aconteceu? Será que tínhamos morrido e o pessoal do céu (ou do inferno) estava fazendo a triagem? Era uma bomba? Um assalto? Uma árvore???!!!!...Perguntei aos que desciam comigo. Pobres passageiros e “cochileiros”. Eles de nada sabiam. Achei a cobradora e lhe perguntei o que ocorrera. “O motorista está sentindo dores na perna”, disse ela. Balancei a cabeça, me virei e olhei ao redor. Tinha certeza que aquela árvore ficava ali, naquela mesma avenida. Não a encontrei. Não deu tempo de procurar mais. Outro ônibus da mesma linha apareceu, rapidamente, e todos subimos... Resultado óbvio: cheguei atrasado e escrevi uma crônica...

-Danillo Melo-
  28/09/2012

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Um tapinha não dói...

Em cima da minha casa, na parte dos fundos, existe uma caixa d'água que, creio eu, comporta mais de 1000 litros d'água. Meus irmãos, quando jovens, há cerca de 25 anos atrás, eu acho...(velhos, não?!), subiam no telhado da casa e iam "nadar" dentro da caixa. E se a minha mãe descobrisse, a coisa ficaria feia e eles iriam apanhar, com certeza...e apanhavam. De todas as opções existentes para bater nos filhos, a que ela mais gostava era o raspa-coco ou "rapa-coco", segundo ela própria. Se o leitor não sabe o que é, aqui está:
Bonito, não?! O problema da pisa com o rapa-coco era exatamente porque a minha mãe costumava usar não a parte da madeira, mas a parte dos dentes pra corrigir os bagunceiros. É verdade...até hoje, alguns deles carregam pequenas marcas brancas nos braços, marcas que eles mostram, quase com orgulho, cheias de histórias que eles contam sorrindo...Na minha época os instrumentos utilizados foram apenas o cinturão, a sandália e a palmada...nunca provei o "rapa-coco", mas provei o coco que a minha mãe ralava com ele...

Lei 10406 do Código Civil, Art. 1634:
"Compete aos pais, quanto à pessoa dos filhos menores:
VII - exigir que lhes prestem obediência, respeito e os serviços próprios de sua idade e condição."

A mudança no texto foi:

"VII - exigir, sem o uso de força física, moderada ou imoderada que lhes prestem obediência, respeito e os serviços próprios de sua idade e condição."


É a lei da palmada...a lei que a minha mãe seguia, ou não seguia, ou ambos. Não se educa com palmada? Claro que se educa! Eu e meus irmãos fomos educados por ela. Eu, particularmente, recebi palmadas e castigos. Não foram muitos, mas foram suficientes para me tornar conhecedor das duas medidas educativas. Ambas funcionam e se aplicadas no momento e na medida certos, alcançam o efeito pretendido. Aconselho os pais a usá-las, com sabedoria e moderação. Não defendo os abusos e maus-tratos que debilitam e até matam crianças. Não defendo os pais que usam da força física ou psicológica para oprimir, humilhar e subjugar. Não defendo o "rapa-coco", mas defendo a liberdade dos pais em usarem um tapinha para educar, para instruir e corrigir. O estado quer diminuir o direito dos pais a exigirem obediência, mas não abre mão da força que ele mesmo usa para recebê-la. Como se abafa uma manifestação popular numa Avenida no centro do Recife? Com palmada ou sem palmada? "Não batam nos seus filhos...deixem que nós o fazemos!" O estado quer educar de fora pra dentro, mas a educação vem da família. Os pais precisam exercer esses direitos e o estado só deve intervir quando necessário. Em nome de uma falsa "liberdade", os valores que unem e fortalecem as famílias, e que são imprescindíveis para a solidez da sociedade, estão se desfazendo diante de nossos olhos...As músicas que incitam a pedofilia, o tráfico de drogas e a violência andam por aí, mas a palmada, não querem que ela vá a lugar nenhum...

"Art. 2º Considera-se criança, para os efeitos desta Lei, a pessoa até doze anos de idade incompletos, e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade."
(Fonte: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm)

Algumas dessas crianças e adolescentes cujos pais não podem exigir obediência por meio de força física, moderada, usam dessa mesma força, de maneira imoderada, para assassinar aqueles que lhe deram e lhe sustentam as vidas. Que os pais não assassinem os filhos e que os filhos não assassinem os pais! Não acredito que a palmadinha seja o único e melhor dos recursos usados para corrigir, mas acredito que ela é um deles. A questão aqui é bem maior do que a polêmica entre bater ou não bater. A questão é sobre impor limites, exercer autoridade e punir. Elementos que o estado sabe e usa muito bem quando quer satisfazer o interesse de minorias privilegiadas. A questão aqui vai mais além da da palmada. A questão aqui é a maneira como o estado tenta tapar o sol com a peneira. Os pais precisam ensinar, principalmente pelo exemplo, como os filhos devem ser bons cidadãos e corrrigir quando necesário. O estado deve proteger e garantir a união e fortaleza das famílias. Alguém diz pra eles que eles estão fazendo isso errado, por favor!!... Bem que eles mereciam um tapinha...



-Danillo Melo-
 10/09/2012




quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Drummond, Vinícius, Quintana, Paulo Mendes Campos, Danillo Melo, Thiago Martins, Gleison Nascimento, Kerlle de Magalhães e Marcello Borba...


Encontrei-me com o poeta Thiago Martins, no Recife Antigo. Escolhemos um lugar para comer algo enquanto conversávamos. As antigas parcerias que fizemos quase sempre são parte dessas conversas. Nesta ocasião, falávamos um pouco sobre as nossas recentes produções. Aproveitei a oportunidade para contar uma experiência ao poeta... Estava no aeroporto e entrei numa livraria. Encontrei alguns livros de Sidney Sheldon e outros autores. Li aqueles trechos da biografia de alguns deles e, para minha surpresa, muitos deles se tornaram escritores com mais ou menos cinqüenta anos de idade. Falei para o poeta que isso me confortava. “23 anos e nada”, pensava eu. Já era hora de ter um “Best-seller”, ganhar o prêmio Jabuti ou publicar um livro de contos ou poemas. O poeta me confortou: “Somos muito jovens. Ainda tem muita coisa que vamos fazer”. Concordei com ele. Trocamos os celulares e os fones de ouvido. Cada um de nós tinha uma música nova a ser apresentada ao outro. Ouvimos e comentamos as canções um do outro, fizemos observações e elogios. Naquela noite, enquanto conversávamos sobre o que havíamos criado e sobre o que queríamos criar e depois de massagearmos nossos egos, dei-me conta de que o poeta acreditava em mim tanto quanto eu, e que eu acreditava nele, tanto quanto ele. Minha mente criou uma bela conexão de histórias quando, mais tarde, ouvi o poeta Kerlle de Magalhães dizer “... meus ídolos são meus amigos” e quando o poeta Gleison Nascimento me disse que sempre que citava uma frase dita por mim ou por outro amigo poeta, fazia questão de declará-la, na íntegra, como se colocasse aspas, e sempre começava a frase com “O poeta “fulano” disse que...”. Fiquei lisonjeado. O poeta Gleison Nascimento me aconselhou que, nas crônicas, sempre que eu precisasse citar alguém, que o fizesse de maneira a identificar o sujeito (usar nome, sobrenome e título), pois, para ele, no futuro, isso seria útil para a lembrança e o resgate de fatos, pessoas e momentos de nossas histórias...para quando fôssemos ser estudados... Ontem, na internet, assisti a uma entrevista do escritor português José Saramago, ao programa Roda Viva. Ele se tornara escritor aos 55 anos de idade. Eis mais um ponto de conexão da minha teia. Aprendi que a velhice é importante para obter conhecimento a respeito de algumas coisas que, mesmo nesse mundo globalizado e nessa era da informação na qual vivemos, não iremos aprender até que nos tornemos velhos... Pois como disse Renato Russo: “somos tão jovens”, mas “não temos tempo a perder”. É uma honra ter tanta mente brilhante ao meu lado! Que soe pretensioso ou orgulhoso, mas sinto que sabemos bem quem somos e o que queremos e estamos trabalhando para nos tornarmos, quem sabe, talvez, como ele, José Saramago ou como os outros, os outros mestres...



-Danillo Melo-
 29/08/2012

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Porque quero ou porque preciso?

Coisa intrigante no mundo de hoje é a tecnologia. Ela faz com que coisas que antes não existiam se tornem necessárias e até " indispensáveis". Ela nos faz dizer " não consigo viver sem isso e sem aquilo!". Nos faz escravos, nos torna dependentes. Basta experimentar...
Aprendi há alguns dias atrás, numa aula, na igreja, que existe uma diferença entre desejo e necessidade. E que, muitas vezes, nós, ao transformarmos certos desejos em necessidades, acabamos por negligenciar coisas que são realmente importantes... É muito fácil, hoje em dia, trocar de lugar, na lista de prioridades, a posição das coisas necessárias e das desejadas. Elas se confundem e algumas vezes se fundem. Viram dilema. Geram dúvidas. Aí vai um exemplo: Há algumas semanas atrás, não conseguia escrever nenhum texto para o Blog. Estava decepcionado comigo mesmo... Faz muito tempo que eu escrevo. O leitor não sabe (ou talvez saiba) o quão difícil é querer escrever uma música, uma crônica ou um poema, mas não receber inspiração. Escrever é tanto desejo quanto necessidade. Há muitos anos atrás, uma caneta e um papel eram meu pincel e minha tela, minhas ferramentas para a construção do meu mundo (muitas das obras dessa época ainda tenho guardadas). Então o computador entrou na minha vida e pronto! Exatamente naqueles dias em que não consegui escrever nenhum texto para o blog, eu estava sem computador. O poeta Gleison Nascimento não me fez nenhuma cobrança, mas se o fizesse, eu teria a resposta pronta: "Sabe como é, né, poeta?! Tô sem computador..." O pior de tudo foi mentir, assim, descaradamente, pra mim mesmo... Os meus velhos papéis, amarelados e repletos de composições antigas, devem ter se envergonhado de mim, se é que não se ofenderam... A vida está repleta de coisas que trafegam entre o desejo e a necessidade... Não é assim com o amor?.. Quando estamos sozinhos, talvez desejemos alguém, mas não necessitamos. E quando encontramos um certo alguém, sentimos uma peça a preencher um espaço que não sabíamos que estava vazio. Aí vem uma coisa chamada saudade e nos faz sentir que o que ontem era desejo, hoje, é necessidade... É como esta crônica... Eu conversava com a bela Khrízia Taynã, pelo telefone, quando nos despedimos e ela me aconselhou a não ir dormir tarde, escrevendo uma canção ou um poema. Respondi que faria conforme ela dissera, mas que tal conselho não seria atendido caso eu estivesse inspirado. Desliguei o telefone, fui até o banheiro e escovei os dentes. Passei pela sala e fitei o notebook, fechado, sobre a mesa. Foi quando esta crônica me inundou a mente... Não resisti. Não consegui me conter. Abri o notebook, deslizei os dedos pelo teclado e fui correndo matar essa sede... de querer.... ou de precisar...ou de ambos...

-Danillo Melo-
16/08/2012 às 01:51hs

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Zoada por zoada. Cerveja gelada!


Vou lhe deixar localizado. Um primeiro andar. Resido na parte de cima. Vizinha, ao lado esquerdo, existe uma casa de eventos chamada Art’s Passos. O detalhe é que meu quarto fica na extrema esquerda da casa, que dá para o telhado, de zinco, da ‘vizinhança inconveniente’.
Ontem, sábado, aconteceu um evento que perdurou durante a madrugada. A acústica do lugar é horrível. Faz um barulho infernal, tocando ‘ eu quero tchu e eu quero tchá.’, quando na verdade só quero um pouco de paz numa madrugada de sábado. Até ai tudo bem, pois que a academia (Como é corriqueiramente conhecida.) já existe há um tempo. A vizinhança inteira, também barulhenta, já está acostumada com a zoada constante dos sábado à noite. Eu não, mas relevo!
Acontece que, de um tempo pra cá, as pessoas passaram a achar o espaço de dentro, do local, pequeno demais para fazer festas. Agora fazem a rua de espaço de socialização. Quem quer ter um espaço mais reservado, vai para o meio da rua. Chega a ser irônico! Você imagina? Vários grupos de bêbados na frente da sua casa às 03:00h da manhã, gritando e fazendo algazarra. É pra fuder com a madrugada de qualquer cristão.
Há muito eu já vinha incomodado, mas nada tinha falado. Acontece que ontem eu não estava com o espírito festeiro. Sábado casmurro, se é que me entende. Tentei ligar para os dois números de telefones ostentados na fachada do lugar. O residencial ninguém atendia ( naquele barulho, quem escutaria um telefone tocar?) e o celular do dono do espaço estava desligado, acredito que intencionalmente.
Por alguns instantes pensei em ficar em casa e nada mais fazer. Deitei-me. Fechei os olhos. Não consegui. Levantei. Armei-me de meu chapéu panamá e meus óculos, para disfarçar as olheiras. Desci, passei pelas pessoas que estavam sentadas nos últimos degraus da escada de meu lar. Nem sequer as olhei. Caminhei pela calçada com um pouco de dificuldade para trafegar. Estava congestionado. Algumas pessoas me cumprimentaram. ( Penso que talvez achassem que vim para partilhar do momento.) Cheguei na porta da Academia e pedi que alguém chamasse o dono. Ninguém o fez, mas me permitiram que entrasse. O fiz.
Entrei e por alguns instantes fiquei perdido. As luzes estavam apagadas. De iluminação só havia um jogo de luz. Fiquei tonto por alguns segundos, mas prossegui caminhando, para alcançar a gerência do local, que ficava no outro extremo do salão. Segui me esquivando das pessoas que dançavam. Cheguei à porta da gerência e bati. Ninguém me atendeu. Abri uma brecha. Nesse momento a esposa do dono do lugar veio à minha direção e me perguntou ( assustada.) se havia algum problema. Aquiesci. Ela mostrou-me uma cadeira, ao lado de uma mesa desocupada e pediu-me para esperar alguns minutos. Sentei-me.
Daqui a pouco um rapaz, de estatura elevada, trajado de calça, uma camisa que não tenho certeza se era azul ou preta, me serviu uma cerveja. Falei para ele:
- Serviu enganado, senhor. Não pedi nada.
- Por conta da casa. Respondeu.
Não a abri a cerveja nos primeiros minutos. A demora era muita. Abri-a. Chegou-me o mesmo rapaz com um prato de camarão e perguntando se eu desejaria outra cerveja. Fiquei acabrunhado, mas acenei com a cabeça que sim. Trouxe-me. Deu tempo de tomar mais uma cerveja e ficar observando, agora com os olhos adaptados à escuridão, algumas sombras dançarem. O mesmo rapaz, dessa vez sem perguntar, me serviu outra cerveja e dessa vez vinha na minha direção um rapaz magro e com malandragem no caminhar. Eu o conhecia, mas naquele breu não se via a cara de ninguém. Era o dono do lugar. Levantei-me fazendo menção de caminhar à saída do espaço. Ele sentou na outra cadeira vaga da mesa onde eu me encontrava. Apertamo-nos as mãos. Ele chegou mais próximo e perguntou:
- Algum problema específico, vizinho?
- Não, querido, nada demais. A festa está linda, inclusive. Posso pedir outra porção de camarão?
- Quantas quiser. Fique à vontade. A casa é nossa!
Saiu e eu fiquei pousado naquela mesa tomando minha cerveja. Afinal era sábado, né? É dia de festa. Eu não tenho o direito de acabar com a festa daquelas pessoas. Seria desumano.
- Mais camarão, por favor, e me tragam uma cerveja gelada de verdade dessa vez!

-Gleison Nasicmento-
14/08/2012

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Como DVD’s



Acho que era quinta-feira. Senti vontade de locar um filme. Pois é. Acho que faz algum tempo que o leitor não escuta nem faz o que acabei de escrever. Chamei o poeta Gleison Nascimento para me fazer companhia. Fomos andando e conversando sobre coisas que dois cronistas e velhos amigos gostam de conversar quando se encontram. Aquela locadora era conhecida nossa. Bem conhecida. Já havíamos feito aquele percurso, por aquele motivo, centenas de vezes. Tudo parecia exatamente igual. Parecia... Ao chegarmos e entrarmos naquele lugar, nos demos conta de que tudo estava muito...muito diferente. Não havia aquelas quatro ou cinco moças simpáticas e sorridentes a nos receber na porta. Só uma. Não sei se triste ou chateada, mas bastante casmurra. Ela não se moveu...como se não estivéssemos lá. Começamos a rodar e a olhar os filmes com suas capas estampadas, mas não havia muito lugar para onde ir ou muito que escolher. Dois terços daquela imensa locadora haviam desaparecido. As entradas dos outros dois antigos vãos estavam fechadas até o teto por estranhas paredes. Os filmes que vimos pareciam velhos demais para ainda serem considerados lançamentos. E a maioria deles não eram DVD’s, eram Blue-Ray’s. Senti-me numa caixa. Enclausurado. Muita coisa, ali, não sei por que, havia perdido o brilho. Não comentei com o amigo nenhuma das impressões que tive. Escolhemos os filmes. Saímos de lá e mal tínhamos chegado ao início da propriedade ao lado, o poeta me olhou e comentou com certo espanto, como aquele lugar estava estranho, diferente, sem vida. Fiquei surpreso em descobrir que eu não era o único que havia tido tais impressões. Gleison me falou coisas sobre luz, energia e vibrações. Ficamos nos perguntando o que havia acontecido. Onde aquele lugar havia deixado a sua antiga luz. As vezes, as pessoas também perdem seu brilho. Erguem paredes ao seu redor, se fecham e como resultado se tornam menores. As vezes pessoas são colocadas nas prateleiras do esquecimento e ficam por lá, juntando poeira. As vezes pessoas se tornam tristes, amarguradas e sombrias... As locadoras se tornaram ultrapassadas. Em nosso mundo há tantas tecnologias, que muitas delas se tornam obsoletas antes mesmo de serem absorvidas por todos...Eu levei três DVD’s para casa. Dois deles eu não consegui assistir, mas fiquei tranquilo. Sabia que qualquer dia desses poderia entrar na internet e encontrá-los...Pessoas não são DVD’s, não podem nem devem ser deixadas de lado por qualquer motivo. São a melhor máquina que Deus, ou qualquer outro ser que você, caro leitor, acredite, já criou... E o início de tudo, dessa presença ou ausência de luz que há em nós e em nossa vida, é obra nossa. Nós mesmos, em nosso auto-retrato,  é que nos vemos e vivemos como pessoas...ou como DVD’s.

-Danillo Melo-
 07/08/2012




quinta-feira, 19 de julho de 2012

E aí, curtiu?!

Facebook... Sabem por que o usamos enquanto pessoas físicas (ou seria virtuais?...)? Porque queremos ser públicos. Porque em nossa sociedade o status é supervalorizado. O facebook é a vitrine da nossa vida e somos nós que fazemos questão de estampá-la. E por que estampar a nossa vida em uma vitrine? Porque pretendemos ser olhados e admirados, seguidos e apoiados. Porque o anonimato nos parece medíocre. Porque sem os outros não haverá alguém, além de nós mesmos, que se orgulhe da grandeza de nossos pensamentos, palavras e ações. Sim, ele é uma rede social, mas é, ao mesmo tempo, extremamente individual e egoísta. Como praticamente tudo em nossa vida, a nossa existência no facebook é regida por interesses. Interesses que vão dos mais nobres aos mais fúteis. E todo o nosso interesse gira em torno de uma só pessoa: o "eu". Postar algo no facebook e não receber um comentário, um compartilhamento ou um "curtir" é como falar, em um lugar repleto de pessoas, e ser ignorado por todas elas, ao mesmo tempo. E isso machuca ele: o "eu"... O próprio conceito da palavra "social" se torna mais complexo depois disso. Um relacionamento social pode ser mantido à distância? Virtualmente? O facebook mais distancia que aproxima. É mais rede e menos social. E agente se balança, com preguiça, por horas, porque nessa rede, se balançar não parece ócio, mas é mais ócio que trabalho. E se relacionar com as pessoas através do facebook, não é mais teclar...é falar. Porque no facebook nós podemos cutucar, sorrir, ficar vermelhos, oferecer uma bela rosa a uma bela moça e até chorar...tudo isso enquanto assistimos a novela e visualizamos um vídeo no youtube. Não sei como seria se todas as coisas que eu digo e escuto fossem ditas e ouvidas tendo os meus interlocutores fisicamente presentes. Pelo facebook não se sente o calor de outrem, não se ouve o suspiro, nem o tremor na voz, não se vê o arrepiar dos pelos, nem se assiste ao olhar desconcertado, não se abraça e nem se beija, nem mesmo com os mais potentes microfones e webcams. Mas nós insistimos em, sutilmente, substituir as idas à casa de um amigo, pela ida até o computador na sala. E quando nós "entramos" na "sala de bate papo" do facebook, não sabemos quem deseja, realmente, falar conosco ou quem ficará chateado por não "ouvir" um "oi" dos nossos teclados, pois nessa sala, tão cheia de gente, não há olhos para vermos e tentarmos decifrar mensagens de interesse, aceitação, empatia e procura... Um grande amigo de São Paulo, Sebastião Fernandes, deixou o facebook, há alguns meses atrás. Felizmente, agora, que tenho algo importante para falar com ele, terei que me submeter ao nobre trabalho de telefoná-lo e ouvir sua voz de locutor enquanto temos uma conversa daquelas...daquelas que fazem duas pessoas se tornarem melhores depois dela...Não condeno quem usa ou não usa o facebook. Eu uso, o Sebastião, não. "Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é...", disse o poeta... vou entrar lá e postar o link dessa crônica para que outros analisem... analisem esse pedaço da minha vitrine...e você, caro leitor, curtiu?!...

-Danillo Melo-
 19/07/2012