terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Escritor trabalha assim...


Foi numa conversa de bar, ou melhor, de lanchonete. Estávamos eu e o poeta Gleison Nascimento tomando refrigerante e conversando sobre literatura. Escritor trabalha assim, sem carteira assinada, sem bater ponto, sem chefe e muitas vezes sem ambiente de trabalho. Era sobre isso que conversávamos. Estar ali, tomando refrigerante, era trabalho. Porque escritor é assim: ele observa e vive ou vive e observa e depois escreve. Por isso, muito do que se escreve começa longe do papel e da caneta ou do notebook. Fiquei feliz e orgulhoso. Sempre quis trabalhar assim, tomando refrigerante e conversando com um velho amigo. Mas hoje foi diferente. Vou contar-lhes como...
Larguei do trabalho muito mais cedo que  de costume. Era pouco mais de uma hora da tarde e eu tinha acabado de almoçar. Ia andar muitos metros até o terminal do ônibus Engenho do Meio, então decidi ficar ali mesmo, na frente do prédio onde eu estava, no terminal do ônibus Cidade Universitária. Atravessei a rua e vi que o ônibus estava se preparando para sair. Na calçada, havia uma mulher, em pé, um tanto quanto ansiosa e duas moças, sentadas, conversando despreocupadamente. Eu me sentia o mais feliz de todos. Ia chegar em casa dentro de mais ou menos uns 15 minutos e retomar, com prazer, um conto inacabado.  Chegou a hora do ônibus partir. Eu e a mulher subimos e as duas moças, que ainda conversavam tranquilamente, nem se moveram. O ônibus partiu sem elas e eu me perguntava, então, o que elas faziam ali... Sentei feliz e despreocupado. O ônibus seguia o seu trajeto de sempre e eu só pensava no conto. De repente, o veículo entrou numa rua diferente. Fiquei surpreso. Me perguntei por que a motorista queria cortar caminho. Segundos depois, entramos num outra rua, e essa era  muito oposta ao caminho original para se tratar de um atalho. Fiquei decepcionado. Pensei ter pego o ônibus errado e tinha. Senti vontade de me levantar e ir até a cobradora com aquela cara de bobo perguntar que ônibus era aquele. Deduzi sozinho qual era o ônibus  e permaneci sentado, só para evitar ser bobo para mais alguém, além de mim mesmo. Eu sabia onde eu estava, mas não sabia o trajeto que aquela linha faria. Enquanto o ônibus se movia, eu imaginava qual o lugar que eu desceria  e que seria o mais perto possível de casa, para pegar um outro ônibus ou até mesmo ir andando. Estava a imaginar o terceiro ou quarto lugar diferente para descer quando o ônibus se afastou mais ainda de qualquer lugar que eu imaginara. Fiquei frustrado. Não fiz nada. Minha apatia externa não revelava nada da minha inquietação interna. Mentalmente, eu estava correndo de um lado para o outro. Fiquei chateado. Foi quando tudo mudou... Eu estava vivendo uma crônica! Uma crônica pronta! Levantei e fui até a cobradora. Perguntei para onde o ônibus iria e ela respondeu: "San Martin". Eu estava indo para bem longe do meu objetivo. Com certeza fiz cara de mais bobo. Ela me olhou e perguntou onde eu queria ir. Era demais pra mim ver a supresa dela quando eu desse a minha resposta. Não respondi nada. Ela me advertiu que eu deveria descer naquele momento, antes que o ônibus entrasse na avenida que o deixaria ainda mais longe do meu destino. Com pouca simpatia, ela puxou a cordinha usada para pedir parada e me disse: "você vai descer ou não?" Eu me dirigi até a porta e desci. Desci sorrindo, com cara de bobo e de cronista. Eu estava na Avenida Abdias de Carvalho. Sabia bem onde estava. E sabia que era longe de casa. Comprei uma água e andei alguns quilômetros até a Avenida Caxangá, debaixo do sol forte, pra pegar o coletivo certo. Lembrei-me das moças que conversavam com tranquilidade no terminal. Acho que elas estavam esperando Cidade Universitária, o ônibus no qual eu deveria ter subido. Sorri quando pensei nisso. E fiquei aliviado por ter pego o ônibus errado e a ideia certa. Talvez eu poderia ter descido não tão longe de casa, mas meu sacrifício involuntário e em prol da literatura, tinha valido a pena. Passei o caminho de volta para casa vivendo cada pedaço da minha crônica como seu eu fosse um deus. Senhor de cada estrutura linguística dela. Saboreando cada detalhe escrito pela minha pena imaginária e vivido, simultaneamente, por meu corpo fatigado. Cheguei em casa cansado e suado, porém feliz, louco pra gozar do penoso e prazeroso ofício de escrever. Cheguei com a crônica da semana pronta, esperando, no mundo das ideias, com ansiedade, a hora de virar texto... Entendi que é assim que um escritor trabalha... Sendo um pouco bobo também. Me senti bobo, mas escritor. Me senti meio bobo, mas todo escritor. E fiquei orgulhoso, muito orgulhoso... Mas quando vocês, queridos leitores, lembrarem-se de mim, lembrem-se mais do escritor que do bobo, porque o bobo, de escritor, tem tudo e o escritor, de bobo, não tem nada...

-Danillo Melo-
 19/02/2013

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Agressão aos animais


Ele estava lá, sentado na escuridão das calçadas na saída de um beco que dá na rua da alfândega, ao lado do estacionamento da livraria cultura. Eu vinha caminhando da rua da moeda, me dirigindo ao cais de santa Rita onde eu pegaria o ônibus para voltar à minha casa onde um delicioso misto quente com pão dormido me esperava.
Entrei justamente no beco onde o delinquente estava sentado. Agora era eu em uma extremidade do beco caminhando à outra extremidade, onde ele estava. Bastou entrar no beco e o marginal começou latir. Pensei que era apenas para aparecer, afinal de contas cão que ladra não morde, não é? Caminhando passei por ele que agora rosnava como a Polícia Militar em protestos da classe estudantil.
Eu já estava atravessando a rua da alfândega quando se deu a cena de agressão a um animal. Eu caminhava sem olhar para trás por não ter me importado tanto com as ameaças no beco, olhava mesmo era se tinha alguém suspeito na ponte por onde eu teria de passar para chegar ao cais. Não se pode vacilar nas ruas do recife à 01:20H da manhã. Eu ouvi os latido ficarem cada vez mais perto e nem, sequer, suspeitei que ali seria a cena de um crime.
Os latidos iam aumentando de volume. O animal parecia mais perto. Um crime estava para acontecer e eu não tinha noção do perigo que estava correndo. Ouvi, de repente, os latidos pararem e senti uma fisgada no pé esquerdo. O cachorro me mordera, saíra correndo como um covarde e ficara no outro lado da rua, ainda latindo em minha direção. A raiva veio à cabeça. Como se agride alguém assim, sem motivos? E os direitos que me cabem, onde ficam? Acho que ele nunca ouviu falar de direitos humanos... Depois os ativistas da ‘Dogs Liberation Front’ dizem que somos nós, humanos, os animais. Não compreendo!

-Gleison Nascimento-
21/01/2013

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Em cima do muro

Rua humilde. Casas humildes. Silêncio. Um ou dois moradores, ao longe, indiferentes a quase tudo. Ele e os garotos trajavam roupas simples, do tipo " as primeiras que encontrei no guarda-roupas". Os garotos tinham entre 8 e 10 anos. Ele, mais de 20. Era negro. Pequeno. Cabelo desarrumado. Parecia um adolescente. Tinham uma escada. Era uma escada de madeira, comprida, daquelas feitas em casa mesmo. Ele olhou para um lado e para o outro, desconfiado. Tirou as sandálias, levantou a escada e a encostou no muro. Era um muro recém-erguido. Cheirava ainda a cimento. Sentou-se no muro e olhou ao redor, mais desconfiado que antes. Os garotos assistiam tudo. Do outro lado era assim: um quintal e três casas. A primeira delas, ficava do lado direito do portão. Tinha um outro muro recém-erguido perpendicularmente ao principal. As outras casas ficavam mais longe, para dentro da propriedade. Aparentemente, não havia ninguém em nehuma delas. "Nem pessoas, nem cachorro", pensara ele. Agora vinha a parte mais difícil: passar a escada pro outro lado. Começou a puxar, com um razoável esforço, a escada para si. Era uma manobra perigosa e difícil. Fazia barulho. Chamava a atenção. Sentiu medo e vergonha. Olhava para todos lados, assustado. Para as pessoas que o viam, ao longe, fazia cara de abestalhado. A escada raspou no muro, na telha e no corpo. Fazia barulho. Conseguiu colocar a escada do outro lado, dentro do quintal, encostada no muro. Começou a mexer com certa ansiedade na posição da escada. Estava incomodado. A escada caiu. Na rua, assistindo tudo, estavam os dois garotos que o acompanhavam e mais uns três ou quatro de menor idade que tinham se aproximado. 

" Ei, fera, pega a bola aí em cima..." - disse um deles.

"Bola?!..Num tem bola nenhuma aqui em cima, não" - respondeu, olhando para o telhado da casa.

Quando se voltava para continuar a luta com a escada foi pego no flagra. Ficou amedrontado.

"Ei! Num suba aí, nao! Desça daí, vá!"

Um vasculhante se abrira. Era uma mulher. Ele ficou em cima do muro. Não sabia se mentia ou se contava a verdade, porque a verdade com certeza pareceria mentira e talvez a mentira se sairía melhor como verdade. Não mentiu.

"Ô, moça desculpe, viu?! É que eu sou vizinho da esposa do André e vim entregar a escada que ele tinha emprestado...Aí cheguei aqui e num tinha ninguém....e essa escada é muito pesada pra voltar com ela...aí eu pensei em colocar ela aqui dentro, entendeu?!"

Ela fez que sim com a cabeça.

" A senhora avisa pra ele quando ele chegar? Tá aqui no cantinho, viu?! Desculpe..."

Aí ele desce do muro, desconcertado e de fininho, arranhado e envergonhado... com cara de mais abestalhado que antes. Porque ficar em cima do muro não é legal. Muito menos no muro alheio...


-Danillo Melo-
 16/01/2012


segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Minha doença mental


Venho por meio desta crônica informar aos amigos que sou portador de uma deficiência mental cujos sintomas passaram a me incomodar há cerca de três meses. A disfunção ótica colomemorial é uma doença bastante comum em homens de qualquer idade. Popularmente conhecida como memória daltônica esta doença vem, desde que o mundo é mundo, acabando com a paz de relacionamentos alheios.
- Meu bem, lembra da roupa que eu estava quando nos encontramos pela primeira vez?
- Claro, meu bem... Não tem como esquecer aquela saia branca que desenha, como nenhuma outra, as curvas do teu corpo, neguinha.
- A saia era branca, nego.
- Jura?
-...
- Mas era saia! (Puta merda.)
-e a blusa, lembra?
- Claro, neguinha, aquela tua blusa de tricô, amarela...
- Era branca, Gleison. E aquilo não é tricô, é renda.
- Tem certeza, nega? Juro que vi amarelo...
- Devia estar olhando pra outra mulher, então... Porque a minha blusa era branca.
- Me desculpa, meu bem...
 Este sujeito merece desculpas. É vitimado pela incompetência de sua mente tão pequena. Que outra explicação, que não seja demência, se pode dar à esta incapacidade? Que explica um sujeito não conseguir lembrar a cor da roupa da mulher que lhe faz tanto bem? Mulher, esta, que este sujeito passa os dias e as noites a admirar... Problemas mentais... Só pode.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Presente de natal.



O pequeno Antônio Carlos sentou-se ao lado do pai onde passou a tarde inteira assistindo TV.              Logo ele que, elétrico, nunca assistira TV por mais de meia hora... O pai desconfiou.
- O que tu queres, Toni? Anda, desembucha!
- Ééé... Papai... ééé... Promete uma coisa, antes?
- Prometer?
- É, papai... Prometer.
- Prometer o que, filho?
Com os olhos esbugalhados e a voz de sussuro, Antônio faz a proposta.
- Promete que não vai falar nada pra a mamãe?
- É o que, menino? Diz logo, qual a causa de tanto segredo?
- Promete?
-Ai, meu Deus, Toninho. Olha lá, moleque! Tudo bem, vai... Prometo! (Dedos cruzados)
- Papai, a mamãe me falou pra que eu não pedisse presente de natal para o senhor... Falou que o senhor entrou no emprego agora e que está apertado, no momento. Eu juro que tentei não pedir, mas é que eu quero muito um Playstation3 e eu não sei se meus outros papais vão ter grana...
- outros papais, Toni?
- Sim. Os outros papais, papai!
- No plural?
- Mais de um!
- Mais de um?
- Na verdade são dois, além do senhor.
- Conversa mole, menino... Agora deu pra arranjar pai na rua, foi?
- É sério papai... um deles até conseguiu emprego para o senhor!
- Cardoso... Filho da puta. Por isso fez tanta questão de me empregar... Canalha! Pensou alto. Quem te pôs essa idéia na cabeça, filho?
- A mamãe, ué. Todo dia, antes de dormir, ela me põe pra falar com ele.
 As lágrimas desceram.
- O que foi, papai? Fica triste, não. A mamãe sempre fala do senhor para ele. Nunca se esquece de pedir para o senhor crescer na empresa, para as coisas melhorarem aqui em casa. Digo isso porque escuto!
- Tudo bem, filho... Você já os encontrou muitas vezes?
- Na verdade eu nunca encontrei com eles, papai. Nenhum dos dois. A mamãe diz para eu ter paciência que, quem sabe, um dia posso conhecer algum deles.
- Fale mais sobre o segundo papai, meu amor...
- Ah, mal o conheço. Uma vez, por ano, a mamãe me ajuda a escrever uma carta para ele.
- E ele?
-  Nunca respondeu!
- Nunca?
- Não. Ele me traz um presente no natal, mas nem sequer aparece. Entrega a mamãe e ela põe ao lado da minha cama, para me fazer uma surpresa... Todo ano a mesma coisa, mas o senhor vai me dar o Playstation ou não, papai?
- Vai pro teu quarto, filhão. Conversamos sobre o videogame outra hora. Agora o papai precisa conversar com a mamãe, ta bom?
Dos momentos seguintes não se faz necessário um relato muito extenso. O Antônio Carlos ficara em seu quarto o resto do dia e, provavelmente, ouvira tudo o que foi gritado por seus pais, na sala. Entre gritos e lágrimas se findara, naquele início de noite, mais um casamento e nascera mais um filho de pais separados.
Quando o pai do pequeno Antônio Carlos adentrara em seu quarto, encontrara o filho ajoelhado aos pés da cama, de olhos fechados e lágrimas constantes.  O menino nem, sequer, olhou para trás quando recebera um beijo na cabeça e ouvira seu pai dizer que estava indo embora, bater a porta e sair pelo mundo.
- Papai do céu, avisa pra o papai Noel que não quero mais um Playstation 3. Eu só quero que vocês façam meu papai voltar pra casa... Prometo que pra o resto da vida, não peço mais nenhum presente...

- Gleison Nascimento-
12/01/2012

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Caritó


Quando completei 8 anos minha mãe começou a varrer meus pés. Era obvio, eu
estava virando mocinha e o futuro era inevitável: crescer, casar e sair de casa. Eu ainda
brincava de boneca e minha mãe já pensava nisto tudo. Filha, você jura que nunca vai
me abandonar? Juro mamãe. Jura por Deus? Juro por Deus. Nem sabia direito quem
era esse tal de Deus, o que ele fazia, onde ele morava e porque as pessoas tinham que
jurar por ele sempre que algo era importante.
O ritual era diário. Varria a sala e dizia pra eu juntar os pés que ela ia varrer para tirar a
poeira. Hoje eu sei que o ritual de varrer os pés tinha outro significado. O varrer os pés
era sinal de mau agouro para moças que sonhavam em casar.
Certo dia decidi que não queria mais juntar meus pés. Ela enlouqueceu. Sua loucura
aparente me despertou para a vida. Eu já estava com 13 anos. Dei o primeiro beijo.
O primeiro de muitos. Nunca mais meus pés foram varridos. Minha mãe sim, ficou
louca varrida tentando varrer os pés das crianças da rua. E eu, ah fui varrer o mundo
com a vassoura do corpo. Esguia, reta como piaçava chamei a atenção dos faxineiros e
diaristas dos metros.

-Susana Morais-
03/01/2013

sábado, 29 de dezembro de 2012

SAC (Serviço de Atendimento do Céu)

Sábado, 22 de Dezembro de 2012 - 12:00hs

Telefone chamando...

Atendente virtual: "Bom dia! Seja bem-vindo ao céu. Estamos ao céu dispor. Não deixe de conferir as nossas promoções de fim de ano para nascimento e morte no seu país... Para promoções relativas a nascimento ou morte, tecle 1. Problemas com o casamento ou os filhos, tecle 2. Doenças a serem curadas, tecle 3. Para informar pagamento de promessa, tecle 4. Se você quiser informar perda ou roubo de bençãos garantidas, favor, tecle 5. Negociação de dívidas de promessas não pagas, tecle 6. Para solicitar maldições sobre um lugar ou pessoa, tecle 7. Para perguntas sem respostas, tecle o número 8. Para retornar ao menu principal tecle 0. E tecle 9 para falar com um dos nossos atendentes..."... "Nove. A opção escolhida foi para falar com um dos nossos atendentes. Por favor, aguarde. Estamos direcionando a sua ligação para um dos nossos atendentes e informamos que esta ligação está sendo gravada.

Música de fundo: 
"Meu amor, me diz o que você faria se só se restasse esse dia? Se o mundo fosse acabar, me diz, o que você faria?..."

10 minutos depois...

- Isquemael, bom dia! Com quem eu falo?
- Com João.
- Senhor João, em que posso ajudá-lo?
- Minha filha...meu filho...é...
-Anjo não tem sexo, senhor.
-Apois, seu anjo...dernede sexta-feria que o mundo tá pra se acabar num se acabou ainda.
- Hum...entendo, senhor.
- Ói...eu quero que vocês tome uma providência...
-Sim, senhor...será que eu poderia confirmar alguns dados?
- Pois pergunte...
-Qual sua galáxia, senhor?
- Ga o quê...??...eu num sei que danado é isso não, viu...e num gostei desse nome!
- Senhor, sem essa informação eu não poderei prosseguir com o atendimento..
-Eita...esse negócio tá na identidade é?
-Não, senhor.
-Eu num sei ler não, minha filha...meu filho...mas se for um número eu digo!
-Não, senhor, não é um número.
-Intão é o que é que é?
-É a sua localização no universo.
-Rapaz...eu num sei onde esse negóço se localiza não...e olhe que eu tenho 104 ano e já andei em tudo quanto é lugar nesse mundo e nunca vi esse negóço cum esse nome aí....
- Senhor...eu vou ajudar você rastreando a sua galáxia em nosso sistema...Qual o nome do seu planeta?
- Meu pai!! Você parece que mora em outro planeta né?! A gente num mora na terra, criatura?! Nem eu que num sei lê, sei isso!
-Hum...Planeta terra. Achamos. Sua galáxia é a Via Láctea.
-Pronto. Achou. Esses negócio de computador resolver tudo hoje em dia, né?!
-Senhor, a terra não é do nosso setor. Vou transferir sua ligação para o setor responsável. ok?!
-Passe meu anjo...passe. Já devia ter passado em vez de ficar perdendo tempo perguntado besteira!
-Só um minutinho enquanto eu transfiro a ligação...

Música de fundo:
"Acabei com tudo. Escapei com vida..."

-Abimael, boa tarde! Em que posso ajudá-lo?!
-Boa tarde...o seu nome é igualzinho ao do outro, é?!
-Não, senhor. Eu sou o único desse prédio. Em que posso ajudá-lo?
- Então, seu anjo..o mundo tava pra se acabar ontem e já é meio-dia e nada, rapaz!!
-Sim. Entendo, senhor. Posso confirmar alguns dados?
-Vixi Maria!! De novo!! Mas num me venha com aquele nome esquisito de novo não, por favor!
-Ok, senhor.Planeta terra. O senhor poderia me dizer a idade?
-104 anos...seco que nem o chão do sertão, mas novo que nem uma flor de mandacaru...
-Não, senhor. Pergunto a idade do planeta.
-Mai é cada uma!!A idade do planeta?! Cês tão pensano que eu sou Matusalém, é? Cento e quatro é cento e quatro num é novecentos, nao! Nunca vi o mundo nascer nem fazer aniversário pra saber quantos anos ele tem!Oxee....
-Certo, senhor. Vamos tentar outros dados para conseguir fechar o preenchimento da ficha no sistema.
-Vá...diga!
-Esse planeta já foi destruído?
-Claro! Foi uma enchente forte da gota. A senhora ou o senhor...sei lá....num viu isso na Bíblia não , foi? Tá escrito lá a história de Noé e da cheia.
-Sim, senhor. Já ouvi, sim. O senhor Noé é chefe do setor de maldições e castigos, que fica aqui do lado.
-Apois aproveite e diga a ela que num teve precisão de botar pernilongo, barata, cupim, carrapato, timbu. mutuca, maruim e esses bicho tudo assim no barco,não!
-Senhor, desculpe interromper, mas o senhor quer a resolução dos problemas?
-Resolva, resolva. Mas dernede que eu liguei que vocês só pergunta, pergunta, pergunta...
-A escravidão já passou por aí?
-Passou.Ainda bem que foi embora e eu espero que num volte nunca mais, porque eu sou nêgo e véio e com cento e quatro anos eu num aguento ficar levando chibatada, nao!
-Muitos genocídios?
-Rapaz, eu num sei quem é esse não...é de Cabrobó, é? Lá é que tem uns nome esquisito assim...Já sei, isso num é nome de gente! Então é doença...só pode ser!
-Não senhor. Nenhum dos dois. Deixe-me ver...Tem acontecido muitas guerras no seu mundo?
-Oxeee...o que mais tem aqui é guerra! Quebraram a TV de vocês aí, foi? Nunca ouvisse falar nos "Isteites", não? O famoso "Estadu Zunido"? É guerra pra tudo quanto é lado. É perto de um tal de Iraque, onde só tem morte também...No mundo se mata gente que nem mosquito.
-Certo. Senhor, qual é o seu país?
-Brasil, seu anjo.
-Ok. Brasil. Já acrescentei todos os dados no sistema e vou abrir uma ordem de serviço e dentro de alguns minutos eu transfiro sua ligação para o senhor agendar uma visita técnica ao Brasil, está bem?!
-Rapaz...que demora da bexiga é essa, homi?! Assim num dá, não! Depois de ficar conversando miolo de pote o dia todinho vocês ainda quer me passar pra outro anjo com o mermo nome pra começar tudo de novo??
-Senhor, esse é o procedimento padrão.
-Num tem esse negócio de padrão, não! Jogue logo um monte de bomba anatômica e exploda esse negócio, vá! Eu vou ter que botar vocês na justiça, é? Vou procurar um adevogado e processar vocês por calúnia, defamação e danos imorais, porque a pessoa já tá veía e fica passando por essas coisas...
-Calma, senhor. Vou resolver uma etapa pro senhor, viu?! Vou abrir daqui mesmo, do meu terminal, um chamado para uma visita técnica e dentro de 24 horas dois anjos técnicos estarão visitando o seu país para descobrir qual é o problema. Informamos que, caso o problema não seja nosso, será cobrada uma taxa de visita improdutiva.
- Certo...mas acabe com o mundo tudo, porque se acabar só com o Brasil é mermo que queijo, porque o povo desse mundo aqui se multiplica que nem preá!
-Senhor, a destruição dos outros países depende das exigências dos nossos clientes desses respectivos países.
-Tá certo.
-Depois de passadas as 24 horas o senhor pode nos retornar a ligação. Lembramos que os anjos técnicos são invisíveis e a presença deles não será notada durante a visita.
-Poxa...e eu doido pra saber se eles tem cara de homem ou de mulher...
-O CÉU agradece a sua ligação...Tenha uma boa tarde!

Dia 24 de Dezembro de 2012 - 08:00hs

Ligação...Atendente virtual...menu de opções...espera...música de fundo..atendente 1...averiguação de dados...atendente 2...

-Cacanael, bom dia!
-Meu amigo, diga logo se o mundo vai se acabar ou não, porque já faz é tempo que eu tô esperando aqui e nada. Tô quase morrendo primeiro.
- Um momento, senhor. Vou ler, processar e conferir todos os dados passados pelo atendente anterior...Só mais um minuto...Mais um minutinho, por favor...Só mais alguns minutos para atualização do sistema... Aguarde mais alguns segundos , por favor...

(Telefone Mudo)

Música de fundo:
"E agora ouvi você dizer: acabou ô ô ô ô, acabou...acabou ô ô ô ô, acabouôoo..."

-Senhor?!
-Diga!
-O seu mundo realmente  preenche todos os requisitos para ser exterminado e constatamos na visita técnica que ele já se acabou.
-Acabou como, criatura, se eu tô vivinho da Silva aqui?!
-Senhor, todo o resto do mundo já acabou menos o país Brasil...o Senhor não viu na televisão, não?
- A TV daqui também tá quebrada, seu anjo!...Agora danooussee!... E a gente aqui vai ficar no prejuízo, é?!
-Desculpe, senhor, mas foi verificado um problema de cobertura do sinal e constatamos que a sua área não oferece ainda condições necessárias para o recebimento desse serviço...Tenha um bom dia!

A cobrança da taxa de visita improdutiva chegou pelos Correios...

-Danillo Melo-
 29/12/2012