Quando eu era criança, havia dois momentos atípicos no dia a dia da sociedade que muito me chamavam a atenção e até hoje se mantem bem vivos em minha memória. Eram o carnaval e as eleições. O primeiro, era uma festa, o segundo, era quase o primeiro. Eram muitas as semelhanças. Ambos carregavam multidões. Levavam pessoas de um lado para o outro. Os dois eram recheados de músicas, pessoas públicas, lixo e poluição visual e sonora. Do carnaval, trago até hoje, em sua maioria, lembranças doces, que coincidem com a minha descoberta da música pernambucana e com a descoberta de mim mesmo, enquanto músico. Das disputas eleitorais, trago lembranças de bandeiras, as mais diversas, se erguendo como o estandarte do Bloco das Flores, no Recife Antigo, endossadas, porém, nesse caso, por gritos de guerra, sons de caixas, músicas de candidatos e um mar (quase que literalmente, um mar) de panfletos... Do carnaval, trago uma paixão comedida, mas sempre presente, que praticamente não me deixa um ano sem prestigiá-lo. Da "festa da democracia", como a chamam por aí, trago uma nuvem negra que teima ( e vem teimando há algum tempo) em não cessar de derramar chuvas de descrença e de desesperança à respeito de tudo que "rola" nessa festa. Fosse esse turbilhão de informações e sons e imagens mais eficaz, eu poderia ser, hoje, um militante da causa de algum partido político sei lá de onde, que acredita em sei lá o quê, no entanto, não sou, nem nunca fui. Nunca fui militante. Nem pretendo ser. Todavia não serei radical ao ponto de dizer que nunca o serei. Como canta Gal Costa: "talvez quem sabe um dia..." No dia em que a militância for menos cega, mais razão, menos mercenária, mais ideologia ... talvez nesse dia... quando partidos deixarem de ser defendidos como se fossem organizações religiosas ou clubes de futebol... quando esquerda, direita e centro não se traduzirem na mesma coisa... aí eu milito... visto a camisa como um abadá e corro atrás do trio, do quarteto ou seja lá qual for a coligação honesta que se estabeleça... torço, grito, choro e ponho a mão na cabeça quando a meta for a luta em vez de só o discurso.... oro e peço ajuda quando os desafios parecerem intransponíveis mas ninguém desistir de enfrentá-los... ergo a voz e o estandarte quando a honestidade for a bandeira e luto quando o Brasil for o bloco e o bem geral for a causa... milito ,sim... quando for pra tomar partido do povo, pois esse é o meu partido... é essa minha militância... por uma sociedade mais igual e menos segregadora, por uma nação mais rica e mais pacífica. Pois eu sou militante... Sempre fui militante! E você? Não é?
segunda-feira, 8 de setembro de 2014
quinta-feira, 4 de setembro de 2014
Cale a boca do pastor e nada nos faltará.
Numa terra nem um pouco distante. Em 1958. Nascera uma criança com
uma anomalia genética no mínimo inusitada. Nascera com o ânus no lugar da boca.
Isso. O cu no lugar da boca. E, por incrível que pareça, isso nunca fora um
problema para aquela criança. Muito pelo contrário. O rapazote criou orgulho do
cu que ostentava no rosto. E, na verdade, isso virou sua marca.
O tempo passou. Estudou Psicologia. Formou-se. Ambicioso,
como somos. Viu na boca-cu a maior
jogada de marketing de sua vida. Fez da boca-cu a sua obra. Abriu uma igreja.
Ganhou seguidores. Muitos. Virou um dos maiores empreendedores da fé. Nessa
terra tão distante. Queria mais. Fez um programa de TV. Ganhou ainda mais
seguidores. E ficou famoso nacionalmente.
Pois é, caros amigos. Nosso querido rapazote virou homem
grande. Pastor. Dono de um império religioso. Tem o poder de mudar o programa
de governo de uma candidata a presidência. Virou um homem de sucesso. Graças a
Deus.
Hoje. Continua falando merda. Formando opiniões de merda. E
cagando pros seus seguidores aplaudirem.
Não é, Malafaia?
- Gleison Nascimento-
sexta-feira, 13 de dezembro de 2013
Que se danem as formiguinhas
Cheguei do futebol, madrugada adentro e dei uma olhada despretensiosa no facebook. Cliquei no primeiro link que realmente me chamou a atenção. Era uma matéria curiosa, de um site qualquer, que trazia um vídeo inusitado de uma experiência inusitada: jogaram alumínio líquido dentro de um formigueiro. O resultado foi uma peça bela e interessante, que sugeria uma obra de arte, criada pela tão conhecida engenhosidade das formigas. Desci um pouco mais naquela página e comecei a ler os comentários que ali existiam ao mesmo tempo que organizava minhas próprias observações acerca da tal experiência. O que se seguiu após essa outra despretensiosa consulta foi uma embate interno entre as várias opiniões postadas ali e as minhas, postadas aqui, nessa mente fértil de cronista. Enquanto lia e refletia sobre o que lia, parecia curtir e "descurtir", aplaudir e vaiar, internamente, cada comentário exibido ali, como se minha opinião sobre o assunto estivesse sendo moldada, tal qual o alumínio nos vãos e "desvãos" do formigueiro. Inicialmente, pensei, com ironia: "Quem foi o indivíduo que teve a brilhante ideia de jogar alumínio líquido dentro de um formigueiro?" Segundos depois pensei nas formigas. Confesso que senti pena. Coitadas! Morreram à serviço do que muitos, provavelmente, chamaram arte. À serviço não! Foram mortas de forma cruel e arbitrária. Li comentários exaltados e recheados de insultos que condenavam veementemente os que haviam se interessado pela experiência, como se estes fossem nazistas a matar inocentes e a fazer com eles experimentos científicos que seriam justificados pelo bem que trariam a humanidade. Senti vergonha de ter demorado tantos segundos até pensar nas formiguinhas. Mas achei um exagero tamanha revolta. Havia comentários filosóficos que falavam das formigas como seres vivos e merecedores de respeito e dos humanos como seres vivos e cheios de desrespeito e de futilidades. Havia piadas e palavrões. Não me contive e ri do exagero destes e do humor negro daquelas. Mas o comentário que mais me chamou a atenção dizia exatamente assim: " Ter dó da formiga que está no quintal dos outros é fácil!". Pensei no meu quintal. E nas formigas dele. Pensei o quanto seria interessante acabar com um formigueiro indesejável que houvesse nele e, além disso, levar para casa uma peça, no mínimo, interessante, para adornar a sala. Pensei nas formigas que fazem fila indiana pelo quarto, pela cozinha, pelo banheiro e que se metem dentro dos potes de açúcar e vão parar no suco do almoço. Por alguns instantes as quis mortas. Concordei com o comentário citado acima e também com alguns outros que comportavam tal ideia ou pensamento... É moda ter ideologia no Brasil dos protestos. Ter o que dizer ou opinar sobre tudo, com clareza, firmeza e destemor. A dúvida, a incerteza ou a ignorância, ainda que efêmeras, são condenáveis. Mas nem tudo é o que parece ser e nem todos tem o que parecem ter. Pois por que, então, o poeta cantaria: "Ideologia, eu quero uma pra viver!" ? Vá em frente, caro leitor, e chame a isso do que quiser: falsa moral, hipocrisia ou qualquer outra coisa do tipo... eu chamo de pseudo-ideologia. É tudo falso, camuflado, egocêntrico, político. É ser corrupto e corruptível, mesquinho e patético. Aqui, no país sede da pseudo-ideologia, é muito "alumínio" pra pouca "formiga". E não surge, disso, obra de arte alguma... Saí daquela página com medo de ser pseudo-ideológico e contraditório, mas ao mesmo tempo feliz por não "ter aquela velha opinião formada sobre tudo". Discordei de ambos os grupos, individualmente. Dos que aprovaram e dos que desaprovaram a experiência. Mas concordei com ambos. Descobri que a ideologia é coisa muito complexa para a minha humilde crônica filosófica ou minha efêmera experiência epifânica. Ela não é coisa banal, que se compra numa esquina, se proclama em outra e se vende numa terceira. Vai mais além... Ela ultrapassa a medida das formigas e as fronteiras do formigueiro...
-Danillo Melo-
13/12/2013
-Danillo Melo-
13/12/2013
terça-feira, 15 de outubro de 2013
Uma crônica na esquina
Eram quase três da madrugada. Estávamos eu e o poeta Gleison Nascimento discutindo as coisas da vida, como dois filósofos. A rua estava um breu. Um possível observador da madrugada notaria, com provável curiosidade, que dois poetas pequenos - embora se vissem grandes - conversavam, noite adentro, como se estivessem batendo um papo, numa calma tarde de verão. Somente os guardas noturnos, que circulavam com frequência sobre suas motos, quebravam a calmaria reinante. Essas conversas, o leitor conhece bem, porque já foram mencionadas em crônicas anteriores. Vão do impiedoso capitalismo ao tão comentado preconceito sexual e dos problemas de relacionamento afetivo aos de criação literária. Esses e tantos outros assuntos são temas de conversas que varam a madrugada, acompanhadas por um silêncio pacificador, que não se vê em outros momentos num bairro do subúrbio do Recife, e por dois copos descartáveis e um refrigerante de dois litros. Se poetas fazem coisa mais produtiva na madrugada, nós não sabemos. Aquela parece ser a nossa maneira mais comum de sermos poetas. Já tínhamos tomado todo o refrigerante e mudado de calçada. Estávamos de pé e já tínhamos falado sobre os protestos no Brasil e no namoro. Já tínhamos conversado sobre nossos projetos literários e nossa falta de inspiração. Foi aí que avistamos um gênero literário... na esquina... Era um homem velho, nos seus quase oitenta anos, andando de lá para cá, batendo com sua bengala no chão, como se marcasse seus passos. Vinha de alguma lugar, parava na esquina e passava vários segundos ali, distante, com a mão na testa, como se observasse a avenida, ao longe, ou o horizonte, mais longe ainda, ou como se visse ou esperasse alguém. Depois disso, voltava para o lugar de onde viera e pouco tempo depois recomeçava o ciclo. Nunca mudava a sua cadência. Era como um balé, executado com paciência, atenção e maestria. Comentamos sobre tudo aquilo, rapidamente, mas logo voltamos a nos concentrar em nossa conversa. Porém cada vez que o ciclo se repetia, ficávamos mais curiosos em nossas tentativas de explicar o que se sucedia. Analisamos a cena mais cuidadosamente: o chapéu, o casaco, a bengala, a barba, os passos, a espera, a esquina... Comentamos, ponderamos um pouco, depois sorrimos. Ficamos curiosos, depois eufóricos e entusiasmados. Começamos a divagar, em voz alta, com rapidez e insistência, com uma alegria e uma imaginação de criança e de poeta. A madrugada mostrara seu encanto. Nossa mente literária transformou aquele velho solitário num personagem. O cenário era perfeito e emblemático: a esquina. O tempo era mágico: a madrugada. E os fatos eram misteriosos. Imaginamos muito e tudo. Que aquele velho estava ali porque era um sonâmbulo. Porque era louco e tinha se perdido. Porque gostava de ficar só durante a madrugada contemplando o nada. Porque procurava sentido para uma vida que um dia já teve algum. Porque esperava por alguém que já tinha partido e de quem sentia saudades. Porque era uma entidade guardando a encruzilhada. Porque era um espírito vagando pela madrugada. Ou porque esperava, num encontro marcado, pela morte. Nossa imaginação nos levou tão longe e nos sentimos tão honrados e excitados por sermos parte daquilo que decidimos correr até a esquina e desvendar o mistério que, juntos, presenciávamos. Quando o velho deixou a esquina, deu as costas e começou a andar, lentamente, do modo que fizera desde o começo, nós corremos para a outra esquina, a esquina de nossa rua, a fim de saber para onde ele iria. Durante os poucos metros percorridos conversamos que nossa presença poderia intimidá-lo e tolher suas ações. Imaginamos o que faríamos se dobrássemos a esquina e descobríssemos que não havia homem algum na direção para onde o tínhamos visto partir. Chegamos a achar que nossa presença quebraria o encanto do que realmente deveria acontecer, mas nossa curiosidade era maior do que a possibilidade de nunca desvendarmos tal mistério. Quando chegamos na esquina, vimos o velho de pé, a poucos metros de onde saíra, repetindo os mesmo gestos que o tínhamos visto fazer repetidas vezes. Ficamos em silêncio e esperamos, ansiosos, pelo desenrolar dos fatos. O velho se virou, parecendo não se incomodar com nossa presença, e rapidamente entrou num beco escuro que ficava ao lado de um primeiro andar, com ar de abandonado, que existia a duas casa da esquina... "É o seu Zé, poeta!" - disse-me o poeta Gleison Nascimento. "Que Seu Zé?" - indaguei. "Aquele que vende algumas frutas na frente desse primeiro andar, aí, na avenida..." - respondeu ele. Em um segundo reconheci o velho que tanto havia nos fascinado naquela madrugada. Voltamos para casa um pouco decepcionados pelo resultado de nossa aventura, mas nem tanto, pois de literatos, que somos, ficamos entusiasmados em contar as nossas próprias versões do desenrolar daquela intrigante história... Tempos depois, o poeta Gleison Nascimento me apresentou um conto belíssimo, intitulado "À espera de Rosália" ( leiam, por favor). Saímos de lá felizes. Não foi um velho que vimos naquela esquina, nem um gênero literário, mas dois. Ele, o poeta, encontrou um conto. Eu, uma crônica... na esquina...Ei-la.
-Danillo Melo-
15/10/2013
quinta-feira, 6 de junho de 2013
O amor é uma droga
Começa sempre assim: primeiro, a mera curiosidade, segundo, o interesse genuíno e inocente, terceiro, a atração. Depois todo mundo prova e aprova e desaprova e aprova... Nem adianta se opor. Ninguém consegue se impor. É como um fator biológico, uma necessidade latente, depois pungente, depois explícita. É como um bálsamo que perfuma esse viver, tantas vezes, vazio e melancólico. Perfuma, porque corta. Corta para que perfume. Quem nunca usou, vai usar. Quem diz que não quer, está mentindo. Quem se proclama livre, é ingênuo ou mentiroso. Quem é livre, não é humano ou não existe. O amor é uma droga. De repente, dentro de si, as coisas começam a mudar e fora de si, lá fora, tudo começa a ficar multicor, musical e vivo, como nunca antes havia sido. Aí agente se entrega, se embebeda, se entorpece. Os amigos,uns riem. Outros, usam conosco. E ainda outros, nos aconselhem a largar. Mas nós nos afogamos, sem medo, sem medida, e muitas vezes, sem sentido...só sentindo. Aí agente se perde e se acha nunca tão encontrado na vida. Mas quando o efeito acaba, agente se acaba e se perde, novamente, e se desespera e sofre...de abstinência, de vergonha, de frustração, de dor...de cabeça, no peito, na consciência. E prometemos não usar nunca mais. Então colecionamos tentativas frustradas de viver sem ele ou de esquecê-lo, até descobrirmos que sem ele não se vive e que dele não se esquece. É quando entendemos que o amor nos permite conhecer a nós mesmos e descobrir quem somos. Porque amar é altruísta em seus meios, mas egoísta em seus fins. É a condição mínima, o desejo manifesto de se deixar levar. Nós amamos, porque nos amamos. Porque amar é o efeito de ser amado. É o nirvana, a transcendentalidade, o êxtase. O outro é o instrumento com o qual nos drogamos. É a garrafa, a bituca, a seringa. Sem o outro não poderíamos desfrutar da demonstração mais sublime do amor próprio. Sem nós, o outro não poderia fazer o mesmo. E quando descobrimos que o muito amar, muito nos fará ser amado, nós amamos mais e mais e mais...como se o instrumento que carrega a nossa droga, em vez de uma garrafa, fosse uma fonte que nunca seca. Mas se um dia seca, leva embora consigo tudo com o que havia nos drogado, deixando-nos tão a sós que não nos achamos no infinito vazio. Aí nós rimos de uns amigos, amparamos alguns outros e aconselhamos ainda outros a largar tudo. Mas quando nós olhamos tudo ao nosso redor e não ouvimos as músicas, nem vemos as cores, nós nos damos conta de que o amor tem gosto de vida e que prender-se a ele é como estar preso à liberdade. É como se cada célula do nosso corpo tivesse sido criada pra isso e isso fosse a droga e o sangue que injetamos em nossas veias para tornarmo-nos verdadeiramente seres (humanos) e notadamente vivos... Então nós largamos tudo, mais uma vez, e saímos correndo, nunca prontos, mas sempre...sempre dispostos a amar novamente...
-Danillo Melo-
06/06/2013
quarta-feira, 20 de março de 2013
"É tiro e queda"
Abri a porta da sala.Tudo estava normal, exceto pela minha mãe e minha irmã, quase grudadas na porta, me esperando. Estranhei os olhares acusadores e as testas enrugadas. Pensei que a coisa ia ficar feia. E ficou. Colocaram as mãos pra trás e falaram baixo, quase sussurrando. Contaram que sabiam que eu estava fazendo "isso" e "aquilo" no meio da rua, que nem adiantava tentar mentir. Fui interrogado, acusado e sentenciado. Pensei que estava perdido. Morri de medo. Eu ia dar continuidade ao meu desespero quando elas olharam pra mim com um sorriso no rosto e perguntaram, quase em uníssono: "Passou, meu filho?"..."Passou o quê?", retruquei sem entender. " O soluço...", responderam elas...
Minha mãe sempre diz que "bom pra soluço é tomar susto" (o soluço deve ter gostado). "É tiro e queda". Quando fiquei mais velho, por algum motivo desconhecido para mim, a instrução e a técnica para esse problema mudaram: "Pegue um copo, coloque dois dedinhos d´água, fique de costas pra janela, beba um gole e jogue o resto pra trás... 'é mermo que queijo' " diz ela. E sempre funcionou. Essas coisas sempre funcionam. O leitor vai dizer que é psicológico. E talvez seja, mas elas sempre funcionam. Também tem a técnica da linha: Pegue um pedaço de linha de um tecido qualquer, faça um pequeno caracol com ela, ponha um pouco de saliva e cole no centro da testa que o soluço passa... A vida moderna não conseguiu deixar tudo pra trás. Tem coisas que atravessam o tempo. Existem ditados, costumes e superstições que estão arraigados no consciente e no inconsciente do nosso povo, que são traços distintivos da nossa cultura, da nossa identidade... Assobiar de noite chama cobra. Criança que brinca com fogo, mija na cama. Desgraça é nome feio. Não se fala dentro de casa pra não chamar coisa ruim. Se a coruja passar "cortando" é porque alguém vai morrer. Quem pega no pé do morto não sonha com ele. Ninguém, nem mesmo os que não são supersticiosos, deixa a sandália virada de cabeça pra baixo. É só pra garantir que a mãe estará bem. "Boa Ave-Maria faz, sua casa está em paz" (ainda estou tentando entender essa!). Tá com um "galo" na cabeça? Pegue a peixeira e pressione a parte lateral dela sobre o "galo" que ele desaparece. Falar maldade não pode, senão "os anjos maus dizem amém". E vamos deixar de conversar "miolo de pote", porque " tudo de mais é muito e tudo de muito é veneno". O que é interessante é que não há recurso científico capaz de arrancar tais "verdades", instaladas, há tanto tempo, nas mentes de tantos homens e mulheres... Quando for dormir, não faça como eu, não entrelace as mãos como um defunto, senão terá pesadelos. Ao varrer a casa, o faça na direção da porta, colocando as coisas ruins para fora. Se você, querido leitor, não atende quando chamam seu nome é porque você está fazendo "ouvido de mercador". Se você não consegue se concentrar e ler está crônica, deve estar pensando na "morte da bezerra". Perdeu "o fio da meada"? Peça a São Longuinho para o achar e por favor, prometa a ele que dará três pulinhos quando o tiver encontrado... Minha mãe sempre dizia que os espinhos do mandacaru deixam a pessoa aleijada. Temos um no jardim, perto do muro. Estava pintando a casa, no final do ano passado, quando bati, com força, alguns dos meus dedos nos espinhos. Doeu muito. Eles ficaram inchados. Me preparei para perder os movimentos dos dedos. Fiquei preocupado. Não sabia que cria tanto naquilo. Meus dedos estão bem. Ainda tenho o privilégio de usá-los para escrever... Minha mãe é categórica em tudo o que faz e diz. Ela é "pau pra comer sabão e pau pra saber que sabão não se come". Melhor acreditar nela. Só porque ela errou no caso dos espinhos não significa que irá errar em todas as outras coisas, não é?! ... Há muito dias atrás, na faculdade, aprendi mais uma técnica para passar o soluço. "Você pega a pessoa distraída e mete a colher de pau na cabeça dela! É tiro e queda". Meu amigo, Thiago, me ensinou uma técnica que talvez minha mãe não saiba. A lista é infindável. Se o leitor nunca ouviu nenhuma dessas, converse com alguém mais velho por poucos minutos e aprenderá mais disso. Se leu esta crônica sem pular nenhum parágrafo, atento a cada pormenor de tudo o que foi citado, terá um campo vasto de coisas a serem apreciadas, questionadas e estudadas...pode confiar, "é tiro e queda".
-Danillo Melo-
20/03/2013
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
Escritor trabalha assim...
Foi numa conversa de bar, ou melhor, de lanchonete. Estávamos eu e o poeta Gleison Nascimento tomando refrigerante e conversando sobre literatura. Escritor trabalha assim, sem carteira assinada, sem bater ponto, sem chefe e muitas vezes sem ambiente de trabalho. Era sobre isso que conversávamos. Estar ali, tomando refrigerante, era trabalho. Porque escritor é assim: ele observa e vive ou vive e observa e depois escreve. Por isso, muito do que se escreve começa longe do papel e da caneta ou do notebook. Fiquei feliz e orgulhoso. Sempre quis trabalhar assim, tomando refrigerante e conversando com um velho amigo. Mas hoje foi diferente. Vou contar-lhes como...
Larguei do trabalho muito mais cedo que de costume. Era pouco mais de uma hora da tarde e eu tinha acabado de almoçar. Ia andar muitos metros até o terminal do ônibus Engenho do Meio, então decidi ficar ali mesmo, na frente do prédio onde eu estava, no terminal do ônibus Cidade Universitária. Atravessei a rua e vi que o ônibus estava se preparando para sair. Na calçada, havia uma mulher, em pé, um tanto quanto ansiosa e duas moças, sentadas, conversando despreocupadamente. Eu me sentia o mais feliz de todos. Ia chegar em casa dentro de mais ou menos uns 15 minutos e retomar, com prazer, um conto inacabado. Chegou a hora do ônibus partir. Eu e a mulher subimos e as duas moças, que ainda conversavam tranquilamente, nem se moveram. O ônibus partiu sem elas e eu me perguntava, então, o que elas faziam ali... Sentei feliz e despreocupado. O ônibus seguia o seu trajeto de sempre e eu só pensava no conto. De repente, o veículo entrou numa rua diferente. Fiquei surpreso. Me perguntei por que a motorista queria cortar caminho. Segundos depois, entramos num outra rua, e essa era muito oposta ao caminho original para se tratar de um atalho. Fiquei decepcionado. Pensei ter pego o ônibus errado e tinha. Senti vontade de me levantar e ir até a cobradora com aquela cara de bobo perguntar que ônibus era aquele. Deduzi sozinho qual era o ônibus e permaneci sentado, só para evitar ser bobo para mais alguém, além de mim mesmo. Eu sabia onde eu estava, mas não sabia o trajeto que aquela linha faria. Enquanto o ônibus se movia, eu imaginava qual o lugar que eu desceria e que seria o mais perto possível de casa, para pegar um outro ônibus ou até mesmo ir andando. Estava a imaginar o terceiro ou quarto lugar diferente para descer quando o ônibus se afastou mais ainda de qualquer lugar que eu imaginara. Fiquei frustrado. Não fiz nada. Minha apatia externa não revelava nada da minha inquietação interna. Mentalmente, eu estava correndo de um lado para o outro. Fiquei chateado. Foi quando tudo mudou... Eu estava vivendo uma crônica! Uma crônica pronta! Levantei e fui até a cobradora. Perguntei para onde o ônibus iria e ela respondeu: "San Martin". Eu estava indo para bem longe do meu objetivo. Com certeza fiz cara de mais bobo. Ela me olhou e perguntou onde eu queria ir. Era demais pra mim ver a supresa dela quando eu desse a minha resposta. Não respondi nada. Ela me advertiu que eu deveria descer naquele momento, antes que o ônibus entrasse na avenida que o deixaria ainda mais longe do meu destino. Com pouca simpatia, ela puxou a cordinha usada para pedir parada e me disse: "você vai descer ou não?" Eu me dirigi até a porta e desci. Desci sorrindo, com cara de bobo e de cronista. Eu estava na Avenida Abdias de Carvalho. Sabia bem onde estava. E sabia que era longe de casa. Comprei uma água e andei alguns quilômetros até a Avenida Caxangá, debaixo do sol forte, pra pegar o coletivo certo. Lembrei-me das moças que conversavam com tranquilidade no terminal. Acho que elas estavam esperando Cidade Universitária, o ônibus no qual eu deveria ter subido. Sorri quando pensei nisso. E fiquei aliviado por ter pego o ônibus errado e a ideia certa. Talvez eu poderia ter descido não tão longe de casa, mas meu sacrifício involuntário e em prol da literatura, tinha valido a pena. Passei o caminho de volta para casa vivendo cada pedaço da minha crônica como seu eu fosse um deus. Senhor de cada estrutura linguística dela. Saboreando cada detalhe escrito pela minha pena imaginária e vivido, simultaneamente, por meu corpo fatigado. Cheguei em casa cansado e suado, porém feliz, louco pra gozar do penoso e prazeroso ofício de escrever. Cheguei com a crônica da semana pronta, esperando, no mundo das ideias, com ansiedade, a hora de virar texto... Entendi que é assim que um escritor trabalha... Sendo um pouco bobo também. Me senti bobo, mas escritor. Me senti meio bobo, mas todo escritor. E fiquei orgulhoso, muito orgulhoso... Mas quando vocês, queridos leitores, lembrarem-se de mim, lembrem-se mais do escritor que do bobo, porque o bobo, de escritor, tem tudo e o escritor, de bobo, não tem nada...
-Danillo Melo-
19/02/2013
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